O meu passado é tudo quanto não consegui ser. Nem as sensações de momentos idos me são saudosas: o que se sente exige o momento; passado este, há um virar de página e a história continua, mas não o texto.
Fernando Pessoa
A possibilidade de ir e não voltar é grande. Sinto que quer sair de mim um soneto “da separação”, que eu entitularia de soneto da boa-morte numa referência que todas as coisas têm um fim, um bom fim. Porque a morte não é uma coisa ruim.
Vinicius de Morais -
Há pouco terminei de assistir a um filme chamado “as pontes de Madison”, que eu baixei com o intuito de chorar, de me encontrar. E filme vai, filme vem e nada do choro, mas um envolvimento profundo com a história de Francesca que vive uma história que ela não queria que fosse a história contada por ela, dela. E quantas vezes a gente acaba vivendo as nossas vidas pelas outras pessoas, mas ao parar para se pensar e viver só para si é de um egoísmo tão profundo que não me cabe, é distante demais de mim.
No fim do filme, meus olhos marejavam e vinham de forma aleatória e atropelada um festival de imagens, de pensamentos, de memórias. E pela primeira vez, que fiquei muito feliz com o fim daquilo que eu imaginava ser o melhor para mim, com o fim de um sonho. No filme, ele (Richard) diz que mesmo que os sonhos não tenham se realizado, foi bom tê-los e eu o compreendo perfeitamente. Essa sensação de ter um horizonte adiante, de ter perspectivas, mesmo diante da triste constatação quando os sonhos caem por terra e seus olhos explodem em lágrimas, seu corpo (você) de alguma forma tentando botar pra fora todo o seu esforço que foi empregado. Desde então, eu não tenho digerido a minha não aprovação na UFBA e não ser amado por quem eu amava. Era uma forma de criação idílica. E foi bom criar, foi bom amar, mesmo que por dois.
Havia dias, em que eu parava olhava pra mim pras pessoas que gostavam de mim e que por elas eu não sentia nada. Eu tentava nesse momento me colocar no lugar dele, me colocar do outro lado. Eu tentava buscar explicação para o que já estava mais do que batido, só meus olhos não viam. Dessa história, o mais engraçado, eu me lembro de que eu recebi uma carta que é claramente uma carta de término e que numa insanidade profunda eu não vi nada disso - eu adorei a carta. Era a primeira vez que parecia que tinha algo dele, era um momento estranho e bastante obscuro.
Quando paro e penso e lembro-me de Fernando - Nandico – e sei que ele não está mais aqui é como se não fosse verdade. Eu as vezes tenho certa dificuldade de atentar para ela, como se eu tivesse algum tipo de esquizofrenia, a qual eu tivesse criado um mundo meu, muito parecido com o que é “realidade”. Mesmo a gente distante, eu sabia que a qualquer hora um poderia chegar para o outro e dizer que precisava de ajuda e sem porquês a ajuda estava sempre disponível – não há mais. Foi um back saber da morte de Fernando. Poucos dias antes, ele havia me desbloqueado e aparecia no meu MSN, eu acabei por excluí-lo de vez. Já em Salvador, Jeferson em ligou, Ivo… eu precisei ver no jornal. Eu não quis ir ao velório, à missa e passei quase uma semana ouvindo as músicas que ele gostava e por vezes chorava, ria, fazia gravações… “Yo no te conozco y ya echaba de menos”. Se eu perguntar se eu o Amon que Fernando amava, certamente direi que não. Transformei numa pessoa triste, quase sem amigos, focada em resultados. Tomei para mim um perfeccionismo que não era meu, mas de Vitor. Criei em mi uma competição do eu-sozinho. Loucura, né?
De quando em quando, brota em mim o Amon mais menino, da paz, alegre. Tem dias que me faço crer que sou bipolar, mas isso eu sei que sou tentando esconder meus problemas de mim mesmo, na forma de me proteger. De Tadeu eu levo o sorriso. Sempre que me lembro dele, eu rio, mas penso que não fui uma companhia das mais agradáveis para ele, acredito que devo tê-lo decepcionado, até machucado com as minhas inconstâncias. De Rodrigo eu levo mágoa, mas mágoa de mim mesmo, por ter sido tão idiota e tão burro. Como eu deixei a situação chegar ao que chegou? Eu descobri que tenho uma mania triste que achar que tudo vai ser resolver, que vai dar tudo certo por si mesma, sem muito esforço e faticamente, eu vejo que a coisa não é bem assim. Como eu consegui distanciar uma pessoa que gostava de mim por ficar inerte? Neto é bem mais inteligente do que eu. Mesmo eu ficando mais de um ano sem falar com ele, ele é que se deu bem. Fala com os dois. As relações continuam, apesar de toda prática errada, toda a malícia ser dele, no fim ele triunfa, por falta de hombridade - minha. Dizer que eu confio nele. Não, eu tenho uma capacidade absurda de perdoar as pessoas mesmo àquelas que me fazem muito mal. O Direito me deu essa característica - a da boa vizinhança. Uma hipocrisia sem-fim, o vomitar e engolir o vômito, o ser feliz sendo triste e amargurado. Sorrio e olho pra mim e tenho pena dos meus sentimentos, que por ora e outra tentam aflorar em todo tipo de arte, pois há pouco eu descobri que sou das artes, mas me meto numa roupa social, penteio o meu cabelo, retoco minha máscara do dia e acordo pro meu mundinho.
Outro dia, foi aniversário de Neto e eu vi no facebook dele um parabéns de Rodrigo. Foi dolorido, não eram ciúmes. Era dor mesmo, a dor do fracassado que nunca termina, a dor de quem perde e sabe que as pontadas não cessarão, não terão fim porque o objeto não existe mais. E não existe o porquê, por que fazê-lo então? Eu costumo dizer que tem coisa que não carecem de explicação, falo isso com tanta veemência que me assusto como as pessoas acreditam nas coisas que digo, coisas que eu nem mesmo cogito em assertar como “verossímeis”, quanto como verdades. (Alguém me disse uma vez: “Amon existe a sua verdade, a minha verdade e a verdade ideal que nunca vai ser alcançada”. Acho que foi Vítor, por vezes, creio nisso).
Vitor foi um amor de filme que eu criei. Que foi bom, não sei em que medida. Mas foi o que eu escolhi para mim e se seguimos aquela máxima de somos aquilo que escolhemos que babaca que eu sou. Escolhi a seção das dores. Foram brincadeiras bobas como a soma de não sei qual lá logaritmos ou a soma do ano da Revolução francesa menos alguma coisa para descobrir a idade um do outro. Nós tínhamos 17 anos – Eu vejo a tela do computador como se fosse hoje. Eu me lembro dos seus e-mails, dos seus números de telefone, das roupas que vestiu. Eu tenho a mania de dizer pra mim mesmo que essa relação durou +- 05, eu acho que nesses 05 anos eu o vi umas 20 vezes, sendo muito otimista. Escrevendo isso, é muito fácil perceber como eu criei uma pessoa que não existia, floreei muita coisa, mas que amei profundamente e disso eu sou muito grato. Como eu tentei me livrar dele, como eu tentei desvencilhar os nossos caminhos, mas ele me ajudou como ninguém nessa empreitada, numa cartada final o carnaval. Se eu fechar os meus olhos nitidamente, como essa tela de computador eu consigo ver a latinha de cerveja na mão, as pessoas ao redor, a vendedora de cerveja… enfim, consigo rememorar tudo. Como eu chorei dias, como no outro dia de carnaval, eu fui pra avenida com o coração na garganta, eu precisava me salvar. Senão seria mais ladeira abaixo. O mais incrível foram os dias posteriores e a última vez que o vi com a mesma camisa que nos conhecemos com o meu comentário “você tava com essa camisa quando a gente se conheceu” e o dele “ficou velha, virou camisa de ir pra faculdade”. Do carnaval para esse dia, eu passei uma semana olhando para celular querendo ligar pra ele, mais uma semana… até que ele ligou. Depois desse dia da faculdade, o MSN ficou on por quase um ano, sem conversas e um dia ficou off e nunca mais ligou. Em 2008, eu mandei esse email para ele:
15/06/08
Out of sight, out of mind
Eu ando tentando me enganar. Descobri, então, que sou um péssimo mentiroso, charlatão. Não consigo me enganar por muito tempo. Criei histórias das mais fantasiosas. Inventei um estado de bem-estar que de bem não tinha nada. Enfim, continuei sofrendo pelas mesmas coisas, melhor, fingindo que estava tudo certo. E não estavam.
Eu não posso ser seu amigo. Eu não quero te ver por um bom tempo (isso é eufemismo). Acredito agora que, apesar de viver amando uma pessoa e tentando esquecer todo mal que ela me causou e me causa, não posso viver perto de você. Não mais esses "nossos joguinhos", em que a retórica e a dialética brigam pelo título de majestade. Não posso viver eternamente suspirando por você, cada suspiro representa que estou vivo e, portanto sofro. Meus olhos já nem choram mais, minhas mãos não tremulam... Vivo em um estado constante de inércia em que todas as coisas me acontecem e já nem sinto mais. Tudo já é trivial, cotidiano.
Há meses, a pessoa mais próxima vem dizendo para eu te abandonar de vez. De forma alguma te procurar. Virar a página deste livro que acabou e o vilão da história não fui eu. Às vezes, penso que você é algum tipo de droga, da qual não consigo me libertar. Quero sorrir e me lembrar do quanto fui idiota e que todas essas coisas serão lembranças perdidas em minha confusa mente. Estou voltando para perto de você, mas não quero te ver. Nem sentir que sua presença está próxima. Nada de escutar seus risos e perceber que de longe você me observa. Amo incondicionalmente. Mas o que seria isso? Tentei chegar a algumas conclusões e conclui que não vale a penar nem tentar chegar a elas. Já que não amo, consoante você. Então, não importa mais nada do que eu poderia dizer.
Nesta última semana, tenho venho recebendo sinais claros de meu estado insano. Outro dia, chorei no cinema vendo cenas que pareciam que eram de minha vida e senti pena dele (do filme) e de mim senti dó, compaixão por aquilo que tentava sobreviver a todo custo. O fundo do poço mostrou sua cara. Então, estou te deixando passar, estou te deixando para trás. Por favor, não me mate de novo. Eu não tenho mais tanta vida não, você levou quase tudo do que resto que não destruiu. Não me procure. Não me machuque mais. Não quero mais ser adorado por você, pois para mim esse título ganhou a conotação de sacrifício, martírio. Amigos, amores virão (como você bem disse), então, voa como aquelas aves que voltam apenas para morrer. Eu preciso ser feliz. E felicidade neste caso não converge com a sua pessoa. Fico com medo de quem você amar. "O que os olhos não veem o coração não sente”. Não quero mais padecer. Sorte. Adeus.
Engraçado quando eu vejo alguma coisa dele, com algum amigo em comum ou alguma notícia, o meu coração dispara como se fosse à primeira vez. Finito.
Luiz. Não onde foi que a gente se perdeu. Tenho por ele um amor profundo.
epitáfio
(latim epitaphius, -ii)
s. m.
1. Inscrição sepulcral.
2. Breve elogio fúnebre.